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Sônia Bernardes

Sônia Bernardes

é Colunista apaixonada pela arte de comunicar e interessada nas relações humanas e sua interação com o mundo

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17-01-2012

 

UTI

 

 
Chovia...No supermercado, o relógio anunciava o adiantado da hora. Bela iniciativa essa de oferecer a oportunidade de emprego as pessoas com algum tipo de deficiência - embora eu não goste desta palavra. Quem não possui alguma deficiência? Mesmo assim, o que me intriga mais são as reações das pessoas diante do que elas julgam diferente. É, porque na verdade todos nós somos diferentes. Vais dizer que ainda não percebeste, diante do espelho, que ninguém - além de ti - possui essa beleza ímpar? Sem brincadeira...Penso que cada pessoa carrega em si, na sua unicidade, o direito e o encanto próprio da exclusividade. Isto, por si só, já me basta.


Certa vez, fazem uns duzentos anos, embestaram de me convidar para ser jurada em um concurso de beleza. Logo eu! De olhos fechados, dei nota máxima para todo mundo e vi, nos bastidores, os resultados sendo ajeitados para que a " mais bela " ganhasse - uma vez que o somatório dos números não condizia com a realidade. Na minha sabedoria, concluí que assim - também - nossas vidas são decididas em muitas reuniões de cúpula e aprendi que ninguém é mais do que ninguém, na teoria e na prática.

Somos todos peregrinos, rumo ao mesmo destino. No trajeto, nos ocupamos de formas diferentes, mas isto não nos dá o direito de não reconhecer, no outro - companheiro de viagem - uma extensão de nós mesmos. Não temos o direito da impaciência e do xingamento diante do que supomos " diferente". No supermercado, o senhor à minha frente irritou-se com o funcionário que possuía dificuldade para locomover-se e tinha ido , pela segunda vez, verificar o preço de um produto. Fez um discurso vergonhoso para a humanidade e quando me olhou, buscando com os olhos a minha aprovação, vermelho de raiva, só balancei a cabeça, negativamente. Meio assustado, voltou-se de novo.


- Tu não acha? - esbravejou ele.


Novamente balancei a cabeça, segurando firmemente o cabo da minha sombrinha. A moça do caixa sorriu. Neste exato momento o guri voltou, trazendo em mãos a plaquinha com o preço - para não deixar dúvidas. Ainda resmungando, o homem saiu.
O relógio gritava que eu estava atrasada. Ajeitei da melhor forma possível as compras no carro, me deliciando com o barulho da água batendo nas sacolas. Às vezes eu penso que ainda vou morrer de maluquice. No caminho, lembrei da salada preferida da visita que viria. Parei em outro supermercado e tomei um banho porque julguei, numa fração de segundos, que seria mais ágil se fosse correndo, sem sombrinha. Legítima cabeça de ovo!


Na porta de casa, o relógio já estava de braços cruzados, virado para a parede, beiçudo. Joguei na geladeira o que precisava morar lá e saí voando as tranças. Na portaria, o alívio. Alguns relógios não falam entre si...Percorri os corredores com a preocupação de estar suja. Hospital sempre me traz lembranças, mas destas que a gente gosta de deixar dormindo. Lá eu ando como quem percorre a neve de chinelo de dedos. No longo corredor, finalmente encontro o lugar da espera. Dependendo da situação, um segundo parece uma vida...


Há momentos de fragilidade em que a gente daria tudo para estar no lugar daqueles a quem amamos...Sentir a dor por eles e poupá-los do sofrimento, mesmo que tenhamos a consciência de que tudo faz parte de um propósito maior e de que cada um deve passar pelas coisas que lhe são destinadas. Por mim, já teria morrido meia dúzia de vezes nesta vida, para poupar gente amada.
Quando pude entrar para ficar alguns minutos, segui o ritual que outras pessoas faziam: estiquei minha mão sob o sabonete líquido e fiquei aguardando a sensação de umidade. Não senti. Retirei a mão e a vi transbordando de espuma. Noutra situação, teria dito: " - Só falta o sagu! "


- Meu Deus! Olha o que eu fiz! Pensei que era líquido e fiquei apertando! - falei baixinho.


- Não te preocupa que já está pago... - respondeu, com um sorriso de cumplicidade, um senhor que passava álcool gel na mão.


O corredor parecia levar ao céu. Tantas portas...Minha segunda experiência com UTI...A primeira não acabou bem. O coração acelera. O piso parece travar os passos. A vontade de ver o ser amado, levar-lhe o sorriso e o toque na mão. No final do corredor, mais uma porta e o recado: " MANTER A PORTA FECHADA".

Era ali. Entro. Ali, parece que a tal luz no final do túnel se aninha nas fluorescentes, mas de forma serena. A paz invade o meu coração. Caminho como quem sabe que a vida está mesmo é lá fora, aguardando os passos nos campos com margaridas. Os meus passos, os dele e de todas as pessoas que estão ali, se Deus quiser, de passagem. Tenho certeza que aqueles que passam por alguma experiência de UTI ou prima dela, conseguem ver de outra forma todas as pessoas e todas as situações - até mesmo as cenas mais corriqueiras de supermercado.

O mundo se desdobra diante dos nossos olhos na mesma medida em que desdobramos o nosso olhar em direção a ele, com profundidade. Não há nada de novo nisso, a não ser que eu tenha escrito - de novo ! - esta velha coisa...E está justamente aí a grandiosidade do amadurecimento: descobrir, no caminho da própria evolução pessoal, como novas as velhas coisas. Amadurecimento não se conta por folha de calendário, mas por posturas diante da vida, de acordo com as experiências que nos são permitidas vivenciar. O sofrimento, muitas vezes, torce o baraço da melancia. Felizes aqueles que conseguem amadurecer sem rancor...E já estou divagando...


Quando finalmente cheguei ao leito, que alegria...Nem Mega Sena se iguala. Ter sob o olhar e ao alcance da mão o motivo de tanta preocupação, faz o corpo gelar e o sorriso sair trêmulo. No olhar, o passado todo é lido e entendido, sem palavras. A mão na mão é o tamanho exato do universo. O silêncio, quando na presença, tem jeito de afago. Percebo que a janela, colocada bem na frente do leito, parece uma enorme TV.

Permite ver toda a rua, o estacionamento e, consequentemente, as pessoas que circulam para lá e para cá. Na chuva, vejo a mulher e a criança, o carro prata e a carroça de lona amarela...Trocamos algumas palavras. Poucas, mas suficientes. O relógio da parede já marca que o tempo estourou em 5 minutos. Ninguém pede que eu saia. Entretanto, retiro-me. Para tudo há razão de ser.


Quando passo no estacionamento, o faço de sorriso aberto em toda a extensão das janelas. Sei, agora, que ali atrás há gente amiga que pode ficar um pouco mais feliz se alguém aqui de fora olhar naquela direção... Não somos tão diferentes...No mundo, o que nos difere são as janelas e portas que a gente abre ou fecha... Janelas e portas estão em todos os lugares, inclusive nos supermercados, nos sorrisos, na cordialidade, na credibilidade que estendemos ao outro...Tudo é uma questão de olhar, na direção certa...

Fonte: Jaqueline Bernardes

 

  

Contato: sonia.bia.bernardes@globo.com

Twitter: @Bernardes_Sonia
Facebook: Sonia Bernardes

 


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